AMAZONAS DIVIDIDO: Omar Aziz e Maria do Carmo levam disputa entre lulismo e bolsonarismo ao segundo turno

AMAZONAS DIVIDIDO: Omar Aziz e Maria do Carmo levam disputa entre lulismo e bolsonarismo ao segundo turno

Veterano da política, Omar chega à reta final sustentado por forte presença no interior e ampla rede de alianças municipais. Maria do Carmo aposta na vitória conquistada em Manaus e na força do eleitorado bolsonarista. Mais de 560 mil amazonenses que não foram às urnas no primeiro turno também entram no radar das campanhas.

A eleição para o Governo do Amazonas ganhou um novo desenho depois das urnas de 4 de outubro. De um lado está Omar Aziz (PSD), senador, ex-governador e um dos políticos mais experientes do estado. Do outro, Professora Maria do Carmo (PL), empresária e educadora que chegou há poucos anos às disputas eleitorais e agora tenta transformar a força do bolsonarismo amazonense em uma vitória inédita para sua trajetória política.

O resultado do primeiro turno colocou os dois frente a frente para a votação decisiva de 25 de outubro. Omar terminou na liderança com 841.846 votos, equivalentes a 40,63% dos votos válidos. Maria do Carmo avançou em segundo lugar com 507.335 votos, ou 24,49%. Roberto Cidade (União Brasil) terminou com 21,91%, enquanto David Almeida (Avante) recebeu 10,54%. Justiça Eleitoral

A vantagem inicial de Omar é expressiva: são 334.511 votos de diferença. Mas o segundo turno começa praticamente uma nova eleição. Mais de 722 mil votos válidos foram destinados no primeiro turno a candidatos que agora estão fora da disputa, criando um enorme território eleitoral a ser conquistado por Aziz e Maria.

Omar Aziz: experiência, alianças e força no interior

Omar José Abdel Aziz nasceu em Garça, no interior de São Paulo, em 1958, mas construiu sua vida política no Amazonas. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas, começou sua trajetória ainda no movimento estudantil e posteriormente foi vereador de Manaus, deputado estadual, vice-prefeito da capital, vice-governador e governador do Amazonas. Desde 2015 ocupa uma cadeira no Senado Federal e foi reeleito em 2022 para um novo mandato. Também ganhou projeção nacional ao presidir a CPI da Pandemia, em 2021. Senado Federal

Em 2026, Omar concorre pela coligação Força Amazonas, que reúne PSD, MDB, Republicanos e a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. Sua vice é Alessandra Campelo. É justamente essa composição que o posiciona, na atual disputa, no campo político aliado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Justiça Eleitoral

Mas a principal demonstração de força de Omar não apareceu apenas nas alianças partidárias. Ela veio do mapa eleitoral.

O senador terminou o primeiro turno como o candidato mais votado em 53 dos 62 municípios amazonenses. Maria do Carmo venceu em apenas três — Manaus, Humaitá e Apuí — enquanto Roberto Cidade liderou em seis. A Crítica

Antes mesmo da eleição, Omar já havia reunido 49 prefeitos em sua convenção, o equivalente a aproximadamente 79% dos municípios amazonenses. Levantamento de A Crítica apontou ainda que o senador destinou mais de R$ 242 milhões em emendas individuais aos 62 municípios entre 2023 e 2026, fator que ajuda a explicar sua extensa articulação política com administrações municipais. BNC Amazonas, o site de política!

Isso não significa que apoio de prefeito se transforme automaticamente em voto. Mas mostra que Omar entra no segundo turno cercado por uma máquina de alianças municipais muito mais ampla que a de sua adversária.

Maria do Carmo: da educação à maior disputa política de sua trajetória

Do outro lado está uma candidata com perfil bastante diferente.

Maria do Carmo Seffair Lins de Albuquerque, de 66 anos, nasceu em Manaus. Empresária e professora, é formada em Ciências Contábeis pela UFAM e também em Direito. Construiu grande parte de sua trajetória profissional no setor educacional e tornou-se uma das principais executivas do ensino superior privado no Amazonas, estando há mais de duas décadas à frente da Fametro. CNN Brasil

Sua história eleitoral é bem mais recente que a de Omar. Maria participou da disputa de 2022 como suplente de Arthur Virgílio Neto ao Senado e, em 2024, concorreu à vice-Prefeitura de Manaus. Agora, em 2026, disputa pela primeira vez o Governo do Amazonas. Cidade Verde News

Filiada ao PL, ela encabeça a coligação Mudar é Urgente, formada por PL e Novo, tendo Coronel Aníbal como candidato a vice. Maria também se apresenta politicamente ligada ao campo bolsonarista e apoia Flávio Bolsonaro na eleição presidencial. Tribunal Superior Eleitoral

A estratégia para o segundo turno deverá explorar justamente algo que as urnas mostraram com força: Maria é mais competitiva na capital do que no interior.

Manaus mostrou uma eleição completamente diferente

O maior dado de alerta para Omar está justamente no maior colégio eleitoral do Amazonas.

Em Manaus, Maria do Carmo venceu o primeiro turno, conquistando 371.008 votos, ou 32,89% dos votos válidos. Omar ficou logo atrás, com 354.664 votos, equivalentes a 31,44%.

A diferença foi de apenas 16.344 votos, ou 1,45 ponto percentual. Hub Político

Não é correto, portanto, afirmar apenas com esse resultado que Omar possui uma “expressiva rejeição” em Manaus — rejeição é um indicador medido por pesquisa eleitoral. O que as urnas permitem afirmar é que seu desempenho na capital foi proporcionalmente muito inferior à força demonstrada no interior.

Há outro dado importante: aproximadamente 73% de todos os votos conquistados por Maria do Carmo no Amazonas vieram somente de Manaus. Já no caso de Omar, a capital respondeu por cerca de 42% de sua votação estadual.

É quase uma fotografia da disputa: Maria depende fortemente da capital; Omar construiu vantagem espalhando votos pelo interior.

Novo Airão reforça a força de Omar fora da capital

Novo Airão é um exemplo claro dessa diferença territorial.

Com 100% das urnas apuradas, Omar Aziz terminou em primeiro lugar no município com 4.483 votos, ou 49,16% dos votos válidos. Roberto Cidade ficou em segundo, com 2.238 votos e 24,54%. Maria do Carmo apareceu na terceira posição, recebendo 1.687 votos, correspondentes a 18,50%. UOL Notícias

Na comparação direta entre os dois candidatos que agora estão no segundo turno, Omar abriu em Novo Airão uma vantagem de 2.796 votos e mais de 30 pontos percentuais sobre Maria.

O município, portanto, retrata muito bem o desafio da candidata do PL: para virar a eleição estadual, precisará avançar significativamente em cidades onde Omar construiu larga vantagem.

Ao mesmo tempo, o segundo turno muda completamente o cenário porque os votos de Roberto Cidade — segundo colocado em Novo Airão — e de David Almeida estarão novamente em disputa.

53 cidades contra a capital: a batalha eleitoral do segundo turno

O mapa do primeiro turno deixa a estratégia dos dois lados relativamente clara.

Omar precisa preservar sua ampla vantagem no interior e, ao mesmo tempo, impedir que Maria amplie muito sua diferença em Manaus.

Maria precisa fazer exatamente o contrário: crescer ainda mais na capital e romper a barreira construída por Omar nos municípios do interior.

O candidato do PSD venceu locais importantes como Manacapuru, Itacoatiara, Parintins, Tefé, Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira e dezenas de outros municípios. Maria conseguiu vitórias em Manaus, Humaitá e Apuí. Hub Político

Esse cenário também explica por que as alianças com prefeitos, vereadores e lideranças locais devem ganhar ainda mais peso nas próximas semanas.

E existe ainda um eleitor gigantesco fora dessa conta: quem não votou

Talvez um dos dados mais importantes para compreender o segundo turno esteja fora da votação dos candidatos.

O Amazonas possuía aproximadamente 2,796 milhões de eleitores aptos no primeiro turno. Compareceram 2.232.271. Outros 563.782 eleitores não foram às urnas, uma abstenção de 20,16%. Olhar Direto

Isso significa que existe um contingente de mais de meio milhão de eleitores que não participou da decisão do primeiro turno.

E quem não votou no primeiro turno, estando com sua situação eleitoral regular, pode votar normalmente no segundo turno, já que cada turno é considerado uma eleição independente pela Justiça Eleitoral. Tribunal Superior Eleitoral

É um universo maior do que a própria diferença de 334 mil votos que separou Omar de Maria.

Por isso, mobilizar quem ficou em casa será tão importante quanto conquistar eleitores de Roberto Cidade e David Almeida.

Lula e Flávio também deverão olhar com atenção para o Amazonas

Existe ainda outro ingrediente: no mesmo dia em que Omar e Maria disputarão o governo, Lula e Flávio Bolsonaro estarão frente a frente no segundo turno presidencial.

No Amazonas, Lula terminou o primeiro turno presidencial na frente com 1.046.996 votos, ou 48,23%, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 976.764 votos, equivalentes a 45%. Uma diferença estadual relativamente pequena de pouco mais de 70 mil votos. UOL Notícias

Esse resultado torna o Amazonas um estado eleitoralmente estratégico para as duas campanhas nacionais.

Omar oferece a Lula uma estrutura política robusta no interior. Maria oferece a Flávio um palanque competitivo principalmente em Manaus, cidade onde o eleitorado conservador demonstrou força.

Assim, o segundo turno amazonense tende a extrapolar a disputa pelo Palácio do Governo.

Serão duas eleições acontecendo simultaneamente e politicamente conectadas.

Mais complexo do que simplesmente “direita contra esquerda”

A eleição, naturalmente, será apresentada por parte das campanhas como uma extensão da polarização nacional.

Maria do Carmo representa de forma mais direta o campo da direita, está no PL e faz campanha ao lado do bolsonarismo.

Omar, por sua vez, está aliado a Lula e possui PT, PCdoB e PV dentro de sua coligação. Mas o próprio PSD não é um partido tradicionalmente de esquerda, e sua chapa reúne também MDB e Republicanos.

Portanto, o segundo turno amazonense mistura ideologia, alianças municipais, grupos políticos históricos, força partidária, interior contra capital e duas candidaturas com trajetórias completamente diferentes.

De um lado, um ex-governador e senador que conhece profundamente o sistema político e chega à disputa respaldado por 53 vitórias municipais.

Do outro, uma empresária e educadora relativamente nova nas urnas, mas que conseguiu superar nomes tradicionais e vencer justamente no maior colégio eleitoral do estado.

Quem fica com a cadeira do Governo do Amazonas?

O primeiro turno deu a vantagem a Omar Aziz.

Mas não entregou a eleição.

Omar começa com 40,63%. Maria parte de 24,49%. No entanto, aproximadamente 34,88% dos votos válidos foram destinados a outros candidatos — mais de 722 mil votos que agora não possuem candidato no segundo turno.

Somam-se a eles os 563 mil eleitores que não compareceram às urnas.

É nesse universo que estará grande parte da batalha até 25 de outubro.

Omar precisará provar que sua liderança no interior é suficientemente forte para resistir a uma possível concentração do voto de direita em Maria.

Maria precisará provar que a onda bolsonarista, forte em Manaus e presente desde a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, consegue atravessar os limites da capital e alcançar os municípios onde Omar domina politicamente.

O Amazonas chega, portanto, a um segundo turno que coloca frente a frente não apenas dois candidatos, mas duas estratégias completamente diferentes de chegar ao poder.

E a decisão final será novamente do eleitor.

Diário de Novo Airão — O DNA da Notícia

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