ICMBio de Novo Airão detalha desafios, fiscalização e a realidade das unidades de conservação do Baixo Rio Negro

Novo Airão (AM) — A equipe do Diário de Novo Airão visitou o Núcleo de Gestão Integrada (NGI) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) no município para conhecer de perto o trabalho da instituição responsável pela proteção de algumas das áreas ambientais mais importantes do país.
Durante a visita, o analista ambiental Henrique, servidor do órgão há quase uma década, falou sobre a atuação da equipe, os desafios da fiscalização e a relação com comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas da região.

A responsabilidade de cuidar de 4 milhões de hectares

Henrique explicou que o ICMBio assumiu a gestão das Unidades de Conservação (UCs) em 2007, após a cisão com o IBAMA. Só na região do Baixo Rio Negro, o NGI de Novo Airão é responsável por quatro UCs:

  • Parque Nacional de Anavilhanas

  • Parque Nacional do Jaú

  • Reserva Extrativista (Resex) do Rio Unini (popularmente chamada Rio Minho)

  • Reserva Extrativista Baixo Rio Branco–Jauaperi, que se estende até Roraima

“Dá mais ou menos 4 milhões de hectares pra gente cuidar”, destacou o analista.

A equipe hoje conta com quatro analistas ambientais e um técnico ambiental, além de bases avançadas onde atuam agentes temporários de proteção ambiental.

Fiscalização difícil em uma área de 400 ilhas

Segundo Henrique, parte significativa do território está localizada em áreas de difícil acesso, especialmente no arquipélago do Anavilhanas, onde a geografia favorece práticas ilegais.

“São mais de 400 ilhas, um verdadeiro labirinto. Isso atrai pesca ilegal, tanto comercial quanto esportiva, além de corte seletivo de madeira.”

Ele explica que o desmatamento na região é menos relacionado a grandes áreas derrubadas e mais ligado ao corte seletivo para abastecer mercados de Manaus e Novo Airão.

Pesca de subsistência: tolerância, controle e novo termo de compromisso

Uma das dúvidas mais frequentes da população é sobre a pesca dentro das UCs. Henrique esclareceu que há tolerância apenas para a pesca de subsistência — e mesmo assim, de forma controlada.

“Não é qualquer morador, A tolerância é voltada para famílias de baixa renda e comunidades do entorno, São cerca de 50 comunidades.”

O ICMBio trabalha atualmente na construção de um termo de compromisso com as comunidades, que estabelecerá regras claras para a atividade, a proposta prevê que pescadores e representantes comunitários façam monitoramento e enviem mensalmente dados ao órgão.

A pesca esportiva, no entanto, é proibida.

Pirarucu: manejo sustentável aumenta a população

O analista reforçou que o pirarucu é uma espécie protegida e só pode ser capturada sob manejo comunitário, autorizado após cursos, contagens e aprovação do IBAMA.

“O manejo não acabou com a pesca ilegal, mas aumentou muito a população do pirarucu, As comunidades cuidam melhor das áreas quando têm responsabilidade sobre elas.”

Peixe-boi e boto: presença rara e monitoramento especializado

Em relação aos mamíferos aquáticos, Henrique afirmou que, embora existam registros de peixe-boi e boto na região, o monitoramento com coleiras e chips não ocorre em Novo Airão, mas sim em áreas como Mamirauá, conduzido pelo INPA e instituições parceiras.

O ICMBio, porém, segue realizando resgates e solturas quando necessário.

“Recentemente resgatamos um filhote perto do rio Tumbira, Com orientação do INPA, soltamos para que encontrasse a mãe.”

Comunidades indígenas e quilombolas dentro da área protegida

O Parque Nacional do Jaú possui moradores tradicionais que não foram indenizados durante a criação da unidade — por isso têm direito de permanecer sob regras específicas. Entre esses grupos está a comunidade quilombola do Tambor, recentemente reconhecida oficialmente.

Além disso, algumas comunidades se identificam como indígenas na região do Jauaperi, área próxima aos Waimiri-Atroari.

O ICMBio prevê que esses grupos integrem futuramente o Conselho Gestor das unidades.

Conflitos e resistência

Henrique reconhece que há regiões onde existe resistência de moradores às regras ambientais, principalmente em temas relacionados à terra e uso dos recursos.

“Sempre vai haver alguma resistência porque a criação da reserva afeta interesses, Mas, felizmente, não temos grandes conflitos.”

Um trabalho essencial e desafiador

Durante a visita, a equipe do Diário pôde conhecer também o coordenador do NGI, Heliton, que reforçou a importância do trabalho diário de fiscalização e proteção.

“É um desafio enorme cuidar de uma área tão grande com estrutura limitada, mas seguimos firmes.”

Matéria: Diário de Novo Airão

Repórter: Alysson Santos

Cinegrafista: Eikon Murilo

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