Novo Airão (AM) — Enquanto o Brasil lidera na América Latina o crescimento da desinformação sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), com aumento de mais de 15.000% em conteúdos falsos nos últimos cinco anos, milhares de famílias seguem enfrentando dificuldades concretas no acesso a diagnóstico, inclusão escolar e acompanhamento especializado para crianças autistas.
Os dados são de uma pesquisa inédita conduzida pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com a associação Autistas Brasil, que analisou mais de 60 milhões de mensagens públicas no Telegram em 19 países. O estudo identificou mais de 150 falsas causas e 150 falsas curas para o autismo — muitas delas perigosas — e apontou o Brasil como o maior produtor desse tipo de conteúdo.
Entre as falsas informações mais disseminadas estão teorias que atribuem o autismo a vacinas, consumo de alimentos industrializados, radiação 5G e até fatores espirituais, além da promoção de “tratamentos” sem respaldo científico, como o uso de substâncias tóxicas, eletrochoque e ingestão de prata coloidal.
“Estamos diante de uma epidemia digital. Curas milagrosas e teorias absurdas têm mais alcance do que a ciência. Isso coloca vidas em risco e transforma a desinformação em um modelo de negócio”, alerta Ergon Cugler, coordenador do estudo, autista e membro da diretoria da Autistas Brasil.
A realidade nas escolas: falta de estrutura e profissionais
Enquanto a desinformação cresce nas redes, a realidade de muitas famílias é marcada pela falta de estrutura básica. Um exemplo recente ocorreu no município de Limeira (SP), onde a mãe de uma criança com autismo grau 2 denunciou a falta de adaptação da escola municipal para atender o filho em período integral.
Arthur, de 6 anos, é uma criança não verbal e, segundo laudo médico, necessita de acompanhamento constante e adaptações pedagógicas. No entanto, desde o início do ano letivo, tem acesso a apenas algumas horas de aula por dia, sob a justificativa de que a escola não dispõe de monitores e estrutura suficientes.
A mãe relata que a restrição tem causado frustração, estresse e prejuízo no desenvolvimento da criança, que precisa de rotina e previsibilidade. A prefeitura informou que está realizando progressão gradual para o período integral e que há convocação de novos profissionais, mas o caso expõe um problema recorrente em diversas regiões do país: a dificuldade das redes públicas em garantir inclusão real.
Desinformação e exclusão caminham juntas
Especialistas alertam que a desinformação não é apenas um problema digital — ela impacta diretamente políticas públicas, decisões familiares e o próprio modo como a sociedade enxerga o autismo.
Quando o autismo é tratado como algo a ser “combatido” ou “curado”, reforçam-se preconceitos, atrasam-se diagnósticos e ampliam-se barreiras para a inclusão escolar, social e profissional.
Além disso, a falta de formação específica de profissionais da educação, a escassez de mediadores escolares e a ausência de políticas públicas efetivas tornam o cotidiano das famílias ainda mais difícil.
O desafio agora é estrutural
O avanço no diagnóstico do autismo no Brasil, especialmente entre crianças, exige que educação, saúde e assistência social caminhem juntas. Não basta identificar mais pessoas dentro do espectro — é preciso garantir que elas tenham acesso a acompanhamento adequado, ensino inclusivo e respeito às suas singularidades.
O combate à desinformação é parte desse processo, mas ele precisa vir acompanhado de investimentos em formação profissional, ampliação de serviços públicos e compromisso real com a inclusão.

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